Na sua obra há um alter ego imaginário que neste novo romance, As Bicicletas em Setembro, se diliu, ou melhor multiplica-se, em várias personagens. Aqui a figura central é uma mulher, Jesuína, imagem não do Eterno Feminino, mas de uma força mordaz, da astúcia, da sabedoria. Concorda? .Queria fazer uma metáfora da pátria que nos nasceu, que nos cresceu, nos sufocou. Saiu esta mulher em liberdade, contrariando as minhas ideias iniciais. Ela estabelece os laços entre liberdade e identidade e talvez permita erguer a questão das novas figuras de autoridade..Esta mulher, temida, onde mora o espanto, o absurdo, a dor, a solidão e um certo poder, é uma personagem de sempre. Estava para ser escrita desde quando?.Creio que desde sempre. Quando tinha 14 anos, escrevi no Diário Popular de que o meu pai foi fundador, um conto sobre a minha avó; trinta e cinco anos depois, retomei-a no romance Cão Velho entre Flores. Foi uma oradora de classe e trabalhou nas fábricas de merino, no sopé da calçada da Ajuda, na antiga Rua das Casas do Trabalho. Ela e outras personagens femininas, que percorrem todos os meus livros, são a imagem devolvida daquilo que aprendi sobre a grandeza das mulheres. Possuem uma integridade e uma coragem que, amiúde, não encontro nos homens..Jesuína: várias mulheres? Tem sido abordada a questão da androgenia, mas é forçada. Ou seja, não é artificial a sua construção psicológica e física... .As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na minha vida. Tenho a paixão da mulher. Fiquei sem mãe, era miúdo. As mulheres da minha família tomaram conta de mim, incentivaram-me. Ensinaram-me a não admitir soluções ilusórias. A minha avó era uma criatura excepcional; e tive uma madrasta que sempre me protegeu. A minha mulher conheceu-me estava eu desempregado, por motivos políticos. É um ser incomum. Correu o risco, perigosíssimo, na época, de querer partilhar a vida comigo. Estamos casados há quarenta e sete anos. Éramos dois miúdos e enfrentámos, juntos, o que nem queira saber. Jesuína é, também, a minha mulher. Nos tempos difíceis, ela costuma dizer: "Vamos a isto!".Este é um romance sobre a memória, a passagem do tempo. Não tanto amargo, mas melancólico?.Um romance contra a redução do ser humano, a favor do poder do sonho..Não estaremos também perante um texto sobre o cansaço, a aspereza da solidão de quem, enquanto escritor/cidadão, viveu entre o sonho e a consciência social?.A minha geração foi derrotada. O que não significa que tenha sido vencida. Nem, sequer, que abdique dos seus ideais. Se alguns abjuram, a maioria resistiu à tentação da indignidade. Mas o que se passa, em Portugal, deixa-me, pelo menos, perplexo. Olhe, Ana, tenho relido, ultimamente, muito Ortega y Gasset, acaso à procura de respostas. Vou ali à estante... espere um pouco, aqui está: "Não sabemos o que se passa, e é precisamente isso que se passa." O velho espanhol diz o que deve ser dito, e apenas numa frase. .Jesuína diz que não está enterrada em vida, sabe o que se passa lá fora e não gosta. Que se passa?.A total ausência de comunidade. A falaciosa ideia de que estamos em sociedade, quando desatámos os laços que nos deviam unir. Perdemos a compaixão. .O tecido espacial deste livro é lisboeta. Inscreve-se o romance, por outro lado, na tradição literária portuguesa, de Camilo a Brandão, de Pascoaes ao tão esquecido Manuel Laranjeira?.O mundo mais não é do que uma sucessão de bairros. O sonho, que se exprime n'As Bicicletas em Setembro, é uma ética da solicitude, que se insurge contra o indivíduo cada vez mais individualizado pelo capitalismo. Os quatro autores que citou, e Carlos de Oliveira e Aquilino, são os meus autores de mão diurna e mão nocturna..No fundo, é a "verdade íntima das coisas" que procura, nas palavras de Pascoaes?.Pascoaes foi mais além de Brandão. Não entro nessa luta de emulações com o Pessoa. Pascoaes é um prosador singularíssimo. Confere à língua portuguesa uma flexibilidade impressionante. Repare como transforma Amarante numa cidade luminosamente mágica e magicamente sombria..Sente-se uma oscilação entre o trágico e o grotesco, o confessional e o satírico, uma mistura de géneros: romance, diário, novela, poema. Que acha?.E acrescente: reportagem. A reportagem é um género jornalístico que participa da literatura. Um género maior. O jornalismo ensinou-me a sopesar as palavras e a tratá-las com atenção, cuidado e honra. Há por aí numerosos escritores (e algumas escritoras) a quem faria bem passar pelas redacções dos jornais. Talvez não escrevessem tão mal. .Este é um livro, nos seus momentos nocturnos ou brevemente epifânicos, que pinta o retrato do seu ficcionista?.Estou em todos os meus livros, não estou em nenhum dos meus livros..Não passa o autor nesta ficção nas suas diversas idades, diluído em várias personagens?.As personagens dos meus livros vão tendo a minha idade. Jesuína tem a minha idade actual..Estamos perante um romance circular ou em forma de espiral do ponto de vista da construção?.Diria, talvez, que é um conto de fadas, circular como todo o conto de fadas..Escreve enxuto, atingindo o lirismo, como no fragmento do vento que vinha do cemitério, uivante e lúgubre. As Bicicletas em Setembro reflecte sobre o "odor húmido" da velhice, e dialoga com o fantasma da morte....A velhice é chatice e punição. A morte é, simultaneamente, fascínio e recusa. Um problema insolúvel, tanto mais inacessível quanto a própria vida é difícil de conhecer. Jankelevitch, em La Mort, fala nisso como ninguém; nem o imenso Ouspenski, cujo Fragments d'un Enseignement Inconnu me sacudiu porque interpelou a futilidade das minhas certezas..Uma ficção de "quem (também) passou por lá, pela infância". Diz que nada lá existe. Ou o que existe está subterrado?.A infância é um lugar de abandono. O que existe é a memória afectuosa das coisas. Não tive infância: fui promovido a homem num instantinho. .Escreve sobre a "bordadeira que tinha um olho de vidro (lacustre, imenso, medonho)", acusador. Metáfora da consciência, da impossibilidade de esquecimento, da visão dos outros sobre nós?.Venho de um tempo que a classe possidente deseja fazer esquecer. Falava-se baixinho, escrevia-se baixinho, vivia-se baixinho, amava-se baixinho. Havia um olho temível a vigiar-nos. Não era de vidro, fingia ser de vidro. Estamos em vésperas de nos suceder o mesmo. Em farsa, claro, como ensinou Marx. |